sábado, 20 de abril de 2013

Como Ser Uma Pessoa Pior




O sucesso de um bom monólogo está no casamento entre um bom texto, uma boa atriz e uma equipe harmoniosa.
Em Como Ser Uma Pessoa Pior o que vemos é um show desses três fatores, fazendo com que esqueçamos Lulu e teatro, e sutilmente nos sentemos na sala de estar dessa mulher de sentimentos tão comuns.
Em meio a uma crise existencial e amorosa, a personagem, que opta pelo isolamento, penetra tão profundamente em seus próprios anseios e sentimentos, que curiosamente nos leva ao riso.
A reflexão e atuo-identificação é inevitável, é o tipo de texto que faz uso do exagero para aproximar a plateia daquilo que não tem nada de irreal.
Em meio a essa maluca decisão de tornar-se alguém pior, o humor negro acaba sendo a grande sacada da peça. Fazer  rir do que normalmente nos faz chorar, faz da arte essa arma transformadora, não importa a situação que se esteja vivendo, ela não é mais forte do que olhar que dedicamos a ela.



Foto Burgos Rafael

terça-feira, 16 de abril de 2013

A Primeira Vista


Coragem é a definição de um grupo de atores que, em tempos de grandes polêmicas explodindo diante do tabu das relações homoafetivas, trás para os palcos uma linda história de amor entre duas mulheres.
Ao primeiro anúncio, “A Primeira Vista” pode parecer complexa e polêmica, mas o grande encantamento da peça está justamente na simplicidade com que essa relação é tratada. Quando nos damos conta, nos vemos em meio a uma inquestionável história de respeito e cumplicidade.
Com um cenário claro e com pouco mais do que duas cadeiras e uma planta, Drica Moraes e Mariana Lima são capazes de transportar a plateia para esse universo desconhecido e cada vez mais instigante. Apenas contando uma história.
A sequencia com que as coisas vão acontecendo, são tão naturais que nos livra de qualquer julgamento, como se assim como elas, estivéssemos envolvidos demais para raciocinar sobre o que de fato acontece ali, resultando em uma mensagem pura, de que o amor dispensa rótulos e nomenclaturas.
O amor visto naquele palco não é o dos contos de fadas, pois não existem definições nem moral da história, mas é ideal da vida real. Natural e Simples. Afinal, para os momentos inesquecíveis, nada, já pode ser o bastante!

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O Desaparecimento do Elefante





Uma produção capaz de encantar qualquer plateia e com um elenco conhecidíssimo dos brasileiros, O Desaparecimento do Elefante chega cheio de mistérios e até um pouco confuso.
O segundo trabalho teatral da reconhecida diretora Monique Gardenberg é de fato muito bem dirigido, os traços de uma cineasta são aos poucos reconhecidos, sem que o teatro se perca de vista.
Monique escolheu uma série de contos de um premiado autor japonês e os adaptou muito bem a realidade ocidental. Os quadros são bem estruturados e não possuem ligação alguma entre si, gerando um mix de sensações e impressões num mesmo espetáculo.
Falta profundidade à peça num todo, porém deve ser reconhecido que existe uma proposta e ela é realmente alcançada. Um elenco com domínio no palco, sabe provocar boas risadas e divertir em algumas cenas, leva até a novas descobertas, como a veia cômica fantástica de Marjorie Estiano, que comprova seu talento também nos palcos. 

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Bom Retiro 958 Metros




Muito mais do que uma encenação teatral e  um roteiro bem sucedido. Não falamos de algo que possa ser comparado e julgado aos padrões habituais de arte. Sem nenhum tipo de explicação, você é rapidamente imergido em um mundo atemporal. A sensação que se tem é que surge uma espécie de portal, que transporta toda a plateia para um universo paralelo. De repente fica difícil distinguir plateia de ator ou personagem, tornam-se todos uma coisa só.
Assim inicia-se essa viagem fantástica... a cada passo (sim caminhamos com o elenco pelas ruas do Bom Retiro), uma descoberta trazida por um novo questionamento. Esse quebra-cabeça saboroso aos poucos conquista e instiga. Personagens fascinantes vão surgindo... a faxineira divertida, a noiva perdida no tempo, uma mulher em volta às suas loucuras consumistas, uma manequim com defeito que busca ser aceita com uma pureza que emociona. Claro que o mendigo viciado em craque é uma das maiores obras-primas da trama, pois nas palavras de um “louco” revela grandes verdades e  loucura parece ser não concordar com este homem. Além da costureira castelhana, que mostra que essa história também é repleta de dores, pragas e aflições.
Seguimos os passos dessas personagens que não só nos guiam pelas ruas do Bom Retiro, como nos fazem sentir parte desse lugar, nas entrelinhas de cada ato o fantasma do próprio Bom Retiro fica cada vez mais forte, e sem uma explicação única, cada um ali presente, passa a senti-lo.
Beleza, genialidade, ousadia, compromisso e originalidade são alguns dos muitos adjetivos que a obra e o próprio grupo Vertigem merecem por esse feito.
Com uma proposta inédita, as reflexões e reações não poderiam ser diferentes. Dali em diante levamos para casa, a mudança e construção de algo novo, o teatro, o Bom Retiro e cada um de nós, nunca mais serão os mesmos.  



domingo, 7 de abril de 2013

Show Maria Bethânia







A junção da interpretação e poesia decifradas pela mais linda voz que esse país conhece, atendem pelo nome de Maria Bethânia.
No palco, aquela mulher diferente de todas que já se conheceu. Com uma beleza própria, ela encanta e apaixona os olhos compenetrados e ansiosos na plateia. O repertório é lindo, mas incrivelmente passa a não ser o mais importante nesse espetáculo inesquecível.
O show dessa baiana é verdadeiramente transformador, leva a reflexão do que se entendeu até hoje como música e poesia, o poder das palavras na boca de quem as sente com o coração, e quando se dá conta, você está entendendo de outra forma, aquilo que sempre pareceu obvio. Com Bethânia não existe o óbvio, nem o clichê, com Bethânia as palavras ganham forças, que até seus pés (sempre descalços) aparentam sentir.
A impressão que se tem, é que de uma forma mágica, música e essa guerreira juntam-se e  tornam-se uma coisa só.  Sua leveza e desprendimento, seu sorriso brando e sua entrega no palco são dignas de todos os aplausos recebidos por esse público emocionado.
Prezo por um mundo um pouco mais “Bethânia”, com lugar garantido para a simplicidade, sem que a beleza e a magia sejam perdidas, lugar em que a música não só diverte, como emociona, ensina e te torna alguém melhor.  

segunda-feira, 25 de março de 2013

Batalha de Arroz num Ringue para Dois





Em um sábado qualquer do ano de 2012 vi “Luiz Antonio Gabriela” em um teatro público, paguei algo aproximado a sete reais e tive uma das melhores e mais brilhantes experiências da minha vida.  Em um teatro semi vazio, por um ingresso extremamente barato, não chegava a sete reais. Está certo que o grupo estava lá pela sua quarta temporada, mas sem exageros, eu veria dez vezes Luiz Antonio Gabriela. Para que o leitor que deve estar confuso com as minhas palavras, já que o título tem a proposta de falar de outra peça, logo me explico, estou tentando fazer uma comparação, dentro do possível.
Sábado dia 23 chego ao Teatro das Artes, lindo e muito bem arquitetado por sinal,  vejo uma bilheteria movimentadíssima, mesmo uma hora antes de começar o espetáculo, é impossível conseguir um bom lugar. O valor do ingresso setenta reais.
E lá vamos nós para o espetáculo da elite, a escolha da família da classe média. A junção do belo teatro e a foto de uma global estampada nos cartazes devem ser o suficiente para nos garantir retorto desse investimento, imagino que seja algo pensado, não só pelo público, como pela produção do evento.
Evidente que, sejamos claros, quando nos propomos a assistir comédias desta natureza não devemos esperar mais do que risadas descompromissadas, o que chamamos de comédia rasa, pois tem apenas o intuito de divertir. Sou a favor da liberdade cultural, e acho que todas as formas de arte são válidas, desde que tenham algum tipo de compromisso com alguma ideia central. Neste caso estamos falando de um espetáculo que no mínimo deve fazer rir, e se nem disso é capaz, sinceramente não entendi o que estava fazendo ali. Confesso que nunca senti vontade de deixar um teatro antes que o espetáculo terminasse, posso dizer então que  “Batalha de Arroz Num Ringue para Dois” me marcou de alguma forma.  
Uma trama sem sentido e desconexa, a insistência em algumas cenas causava uma certa irritação, a impressão que se tinha é de que o autor não sabia exatamente onde queria chegar. Não li o texto original de Mauro Rasi de 1985, mas a péssima adaptação se sobressaía em diversas cenas.
Sem falar da direção, ao menos que tenha tido como inspiração Os Trapalhões, posso dizer que foi de infelicidade sem limites. Os tombos forjados e as quebras de quarta parede dignas dos teatros infantis eram dignas também de pena.
Sobre o elenco, minha única colocação positiva é a presença de Nívea Stelmann, que em meio a tantas catástrofes num palco só manteve-se boa, e ponto. A atuação de Maurício Machado começa bem, porém se desgasta ao longo do espetáculo, o exagero desnecessário concentra demais a atenção no ator, que não é nenhum pouco aproveitada.
Ironicamente o espetáculo é visto, aplaudido e comentado por aqueles que acham que viram algum tipo de arte, e o humor “Zorra Total” ganha milhões em uma produção pobre e que não agrega absolutamente nada à sociedade. Esse “negócio” me parece bastante vantajoso, inclusive milenar, a política do “Pão e Circo” de Roma não era nada diferente disso.  Mantenham-se burros, riam de piadas esdrúxulas e não procurem nada que os façam  diferentes do que são hoje, e de preferência não nos incomodem com suas ideias.
Continuem gastando setenta reais em espetáculos medíocres divulgados pela rede Globo, graças a diversidade e ao bom gosto, sempre existirão aqueles preocupados em mudar o mundo com sua arte, mesmo que isso seja uma utopia,  afinal, nas grandes utopias nascem os maiores heróis e é de novos heróis que esse mundo precisa.

domingo, 17 de março de 2013






Fazer arte é um grande desafio, isso porque exige acima de tudo personalidade.
Sala de Espera é um espetáculo que além de outras tantas classificações, pode ser previamente intitulado como ousado. Com uma linguagem bem diferente do que estamos acostumados a ver nos palcos tradicionais, a ausência de diálogos parece não interferir no entendimento e na apropriação da história.
O riso é presente em quase todos os atos, o que não interfere na crítica contundente ao sistema.
Cada gesto devidamente pensado e o uso do exagero intencional são traços que denunciam não só a criatividade de um jovem diretor, mas de uma equipe entrosada e com muito talento.